REA e os agentes: o fim da indústria de software como a conhecemos
Reuni o que está por trás da onda de software clonado por agentes de IA: o REA, o ArtCraft, as empresas que perderam valor, o que a lei diz sobre clonar sem copiar, o que dizem especialistas e o efeito na economia criativa.
Em menos de duas semanas, um repositório chamado REA chegou a cerca de 306 mil estrelas no GitHub e passou à frente do React e do kernel do Linux entre os projetos mais estrelados da plataforma. Ele liga agentes de programação como Claude Code e Codex a ferramentas de engenharia reversa, e promete que o agente consegue inspecionar um app sem o código-fonte e construir uma versão parecida para o seu projeto. No mesmo mês, apareceram imitações gratuitas de programas famosos de criação e de escritório, escritas com o Claude. Estamos presenciando o exato momento de uma mudança profunda de toda a indústria de software e seus modelos de negócio.

Resumo rápido
- O clone mais famoso do mês, o ArtCraft, imita programas de criação conhecidos e não usou o REA, por medo de processo.
- A bolsa já punia as empresas de software meses antes, mesmo com a receita delas crescendo.
- O direito autoral protege o código escrito, não a função.
- Na economia criativa, a pressão chega primeiro nas ferramentas de entrada, que caminham para o preço zero, e em quem vende templates, plugins, fontes e imagens.
O que é o REA
REA é a sigla de Reverse Engineer Anything, um pacote open source e gratuito que conecta o agente de programação a ferramentas profissionais de engenharia reversa que já existiam. Com ele, o agente inspeciona um programa já compilado, explica como um recurso funciona e, se a pessoa pedir, reescreve o recurso para o projeto dela.
O que o REA fez de verdade
Os casos que dá para verificar são estreitos e técnicos, como refazer uma função de um jogo antigo ou rastrear o caminho de um texto copiado dentro do app do Notion, mostrados na vitrine oficial. Os clones de Photoshop, GTA e Call of Duty que circularam com o nome do REA foram feitos, na maior parte, sem ele. Num teste da MindStudio, dois agentes refizeram o Preview do macOS, um com o REA e outro só com capturas de tela, e o sem REA terminou primeiro.
Até o pico da viralização, o README avisava que o REA “não promete recuperar o código-fonte original nem clonar um aplicativo automaticamente”. A frase sumiu. Quando um colaborador propôs trocar o slogan por um texto voltado a pesquisa de segurança, o autor, que assina com o pseudônimo morluto, respondeu “dont change the tagline pls. just add the disclaimer.” A linha que o projeto traça é a clássica, copiar código não pode e reimplementar comportamento pode, e quem faz as duas etapas é o mesmo agente.
ArtCraft, a suíte criativa refeita com Claude
O ArtCraft é uma suíte gratuita e open source que imita a aparência e as ferramentas de programas conhecidos. Foi criada pelo engenheiro americano Brandon Thomas com a ajuda do Claude. Começou com versões de editores de imagem e vídeo como Photoshop e Premiere, noticiadas pela PetaPixel, e logo vieram Word, Excel, PowerPoint e um FigCraft que pelo nome mira o Figma. Todos aparecem no site como alfa ou em desenvolvimento.

A motivação declarada por Thomas é o custo das assinaturas de software. Dias antes do lançamento, ele postou no Hacker News que “o software acabou” e que tinha feito “o Photoshop inteiro num único prompt”. O time diz que trabalha em clean room, sem olhar o código original, e que não usou o REA porque usar a ferramenta em algo tão visível “provavelmente resultaria em processos”.
A qualidade ficou longe do discurso. Um artista de pixel ouvido pela Decrypt chamou o clone do Photoshop de “completamente inutilizável”, e os números do próprio projeto, reunidos pelo KDnuggets, mostram os clones de Word e PowerPoint ainda incompletos. Um engenheiro que trabalhou na Figma escreveu no Hacker News que apps “clonados por vibe” deixam de fora recursos de usuário avançado e erram os casos de borda, “e isso foi muito, muito verdade nos clones do ArtCraft”.
Antes do REA, um ano de clones
O REA chegou depois de um ano de casos públicos em que agentes refizeram software conhecido em horas ou semanas. Todos funcionaram porque havia um juiz automático para conferir o resultado, como uma bateria de testes, uma especificação detalhada ou o programa original. Na Anthropic, um grupo de instâncias do Claude escreveu em duas semanas um compilador C capaz de gerar um kernel do Linux que inicializa, embora o autor do experimento diga que ele ainda não substitui um compilador de verdade. Um engenheiro da Cloudflare reimplementou o Next.js, framework da Vercel, em menos de uma semana.
Nos games, o Kotaku testou versões para navegador de Halo, de um Call of Duty e do GTA Vice City feitas com ajuda do Claude e escreveu que era “uma brincadeira de acertar a toupeira da proteção de propriedade intelectual numa escala que acho que não vemos desde a chegada dos DVDs piratas”. A Activision tirou do ar vídeos de um Call of Duty decompilado por IA, e a Bethesda mandou uma notificação contra um jogo de navegador feito com IA, que o autor retirou.
Quem está perdendo valor
A bolsa precificou o medo meses antes do REA. A venda de ações de software apelidada de SaaSpocalypse começou em fevereiro de 2026, depois que a Anthropic lançou plugins do Claude Cowork para áreas como jurídico, finanças e marketing, e apagou centenas de bilhões de dólares em valor de mercado em uma semana, segundo a Reuters. Quando a Anthropic lançou o Claude Design, que gera protótipos e páginas a partir de conversa, a Figma caiu no mesmo dia. O setor recuperou boa parte da perda depois, e não achei veículo financeiro de primeira linha que ligue ao REA as quedas de outubro.
No software criativo, a Figma cresce rápido, mas o custo de rodar IA comeu parte da margem, e em setembro a ação valia bem menos que no IPO, segundo o Yahoo Finance. No Brasil, a TOTVS teve uma queda forte num único pregão de fevereiro, segundo o Brazil Journal, e o CEO respondeu que “o impacto no mercado de ERP é zero”.

Até outubro de 2026, a receita dessas empresas seguia subindo, e o que encolhia era o preço que o mercado aceita pagar por ela. Uma pesquisa da Retool, que vende plataforma para construir software interno, diz que mais de um terço das empresas já trocou alguma ferramenta SaaS por software próprio.
O que a lei diz sobre clonar sem copiar
Nos Estados Unidos, na União Europeia e no Brasil, o direito autoral protege a expressão do código, a forma como ele foi escrito, e deixa de fora a ideia e a funcionalidade. Clean room, o método de separar quem estuda o original de quem escreve o novo, nunca foi exigência legal. É uma técnica para provar criação independente num eventual processo, usada desde que outras empresas refizeram o BIOS do PC da IBM, nos anos 1980.
O caso que mais movimentou a discussão foi o do chardet, biblioteca open source em Python. O mantenedor reescreveu o código do zero com o Claude Code e trocou a licença por outra mais permissiva, e o autor original protestou que “eles não têm esse direito”, embora uma análise tenha achado quase nenhuma semelhança entre o código novo e o antigo. A advogada Heather Meeker concordou que não havia base para manter a licença antiga, mas recusou o rótulo de clean room, porque “o conhecimento dele sobre a biblioteca não podia ser apagado”.
Há duas dúvidas sem resposta. Uma é se um modelo que viu o código original no treino consegue fazer clean room, e um professor de direito da Universidade de Sussex disse à Al Jazeera que não se sabe se o clean room do ArtCraft “resiste a uma análise”. A outra é a autoria. Nos Estados Unidos, obra protegida precisa de autor humano, segundo o Baker Donelson, e a Lei de Direitos Autorais brasileira define autor como “a pessoa física criadora” da obra. Um clone escrito quase todo por agente tende a escapar do direito autoral do original e, pelo mesmo motivo, fica com pouca proteção contra o próximo clone.
Até meados de outubro de 2026, não encontrei nenhum processo judicial sobre clone de software feito por agente. As disputas que existem são pedidos de remoção, cartas a autores de jogos e brigas públicas entre empresas, e miram os resultados, não as ferramentas.
O que dizem especialistas, investidores e quem constrói
Quase todo mundo concorda que reescrever código ficou muito mais barato. Gergely Orosz, da newsletter The Pragmatic Engineer, escreveu que ficou “cerca de 100 vezes mais barato graças à IA” e perguntou o que é um fosso competitivo se o código pode ser portado trivialmente. A divergência está no que sobra de valor. O analista Benedict Evans escreveu num ensaio que “a parte difícil é saber que você precisa de uma ferramenta para isso, e depois saber o que a ferramenta deve fazer”.
Cameron Adams, cofundador do Canva, disse à Fast Company que o SaaSpocalypse não o preocupou e que não vai existir “um único lugar aonde o mundo inteiro vai para fazer todo o seu trabalho”. Dylan Field, CEO da Figma, disse no podcast Sourcery que quem só pede ao modelo “desenha a coisa para mim” vai “receber a média, e ela não vai se destacar”.
No Brasil, Laércio Cosentino, fundador da TOTVS, disse ao Brazil Journal que “o software não vai morrer” e que “software não é só linha de código, é processo, é a forma de executar algo com consistência”. Silvio Meira, fundador do CESAR, foi mais longe em entrevista ao Diario de Pernambuco. “Aplicativo vai morrer.” Para ele, em vez de operar um programa, a pessoa vai “descrever o trabalho a ser feito”.
Os movimentos que já começaram
As respostas concretas até aqui são defensivas e aparecem mais no open source do que nas grandes empresas. Nenhum regulador propôs regra específica para clonagem de software por agentes.
No open source, a pressão chegou pelo volume. O curl encerrou o programa de recompensa por bugs por causa de relatórios inúteis gerados por IA, e o Ghostty e o tldraw restringiram contribuições externas. O CEO do tldraw explicou a lógica no blog da empresa. “Se escrever o código é a parte fácil, por que eu iria querer que outra pessoa escrevesse?” O próprio GitHub admitiu que “o custo de criar caiu, mas o custo de revisar não”.
A briga das licenças virou sátira e depois produto. O site MALUS oferece “clean room como serviço”, com robôs que recriam qualquer projeto open source do zero, “sem atribuição, sem copyleft, sem problemas”, e a 404 Media mostrou que a sátira funciona de verdade e cobra pelos clones.

Nas empresas, a mudança mais visível é a forma de cobrar. As plataformas passaram a misturar assentos com créditos de uso, a Figma baixou o preço dos créditos de IA e a Adobe apostou no freemium. E há quem use a onda para descontar. Na Fast Company, um autor contou como usou o Claude para livrar um porta-retratos digital da assinatura que o aparelho exigia, e falou num “senso de retidão moral” por trás da onda.
O que muda para a economia criativa
Software já é a maior fatia dos serviços criativos exportados no mundo, segundo a UNCTAD, e é também a ferramenta de trabalho de designers, estúdios e freelancers.

Ferramentas de entrada a caminho do preço zero
O Canva tornou o Affinity gratuito, a Adobe pôs Photoshop, Express e Acrobat dentro do ChatGPT sem custo, em versão reduzida, e a Anthropic lançou conectores criativos que deixam o Claude operar Creative Cloud, Blender e Affinity. O agente virou a interface que usa as ferramentas das incumbentes.
Para quem vende o domínio de uma ferramenta, a a16z deu o recado num texto sobre interfaces. “Agentes podem matar a memória muscular como fosso, mas não matam a lógica operacional e o contexto.”
A camada do meio é a mais exposta
Quem mais sente é quem vende blocos reutilizáveis, como templates, plugins, fontes e imagens de banco. A Envato, marketplace de templates e assets, cortou até um terço da equipe, e o CEO disse que reduzia custos “para investir mais em produto, marketing e IA”, segundo o Startup Daily. O Fórum Econômico Mundial pôs o design gráfico entre as funções que mais devem encolher, com UI e UX entre as que mais crescem, segundo a Design Week. A lista sai do que os empregadores esperam, e não de uma medição.
Software para uma pessoa só
A outra face é boa para quem cria. Um sócio da a16z chamou o fenômeno de “software descartável” e escreveu que “a criação de software costumava ser limitada pelo retorno sobre o investimento, e agora é limitada só pela imaginação”. Ferramentas pequenas demais para justificar uma equipe passam a ser feitas por quem precisa delas, e na Figma a criação de plugins mais que dobrou depois do lançamento dos plugins gerados por IA, segundo a empresa. Essa cauda longa é onde os vendedores de plugins, scripts e templates ganhavam dinheiro.
Minha leitura
Acho que a notícia mais importante dessa onda é a disrupção no desenvolvimento de software, na mesma magnitude do que o Napster fez com a indústria da música.
Durante décadas, produzir um programa grande exigia anos de trabalho, e isso protegeu empresas gigantes que, mesmo sem prestar um serviço excelente, detinham uma tecnologia inacessível.
O valor que sobra está no que um agente não reproduz a partir de um binário: saber o que construir, dados e a confiança do cliente, marca, comunidade, o suporte e a responsabilidade pelo resultado. Para quem trabalha com engenharia criativa, o trabalho se desloca para a arquitetura do produto como um todo: a experiência, os resultados que ele entrega e como chega a eles. É isso que vai valer daqui para frente.
bju na bundinha
Leo Becker